Recentemente, a assessoria de imprensa da Universidade Estadual de Campinas publicou uma matéria baseada em estudo divulgado no International Journal of Gynecology and Obstetrics, derivado da dissertação de mestrado da psicóloga e terapeuta sexual Ana Luiza Savi. A pesquisa utilizou dados obtidos a partir da inserção de dispositivos intrauterinos (DIUs) — métodos contraceptivos reversíveis de longa duração — no Ambulatório de Planejamento Familiar do Hospital da Mulher Professor José Aristodemo Pinotti (CAISM), da Unicamp.
O estudo demonstrou que a dor durante a inserção do DIU pode ser mais frequente e intensa do que sugerem algumas diretrizes do Ministério da Saúde. Enquanto documentos oficiais relatam que menos de 5% das usuárias apresentariam dor moderada a intensa, os dados analisados no estudo apontaram essa experiência em 81% das mulheres avaliadas. Foram examinadas mais de 7 mil inserções realizadas entre 2022 e 2024, com o objetivo de compreender a ocorrência, a intensidade e os fatores relacionados à dor durante o procedimento.
A repercussão da publicação nas redes sociais trouxe inúmeros relatos de mulheres descrevendo a inserção do DIU como uma experiência extremamente dolorosa, além de manifestações defendendo a adoção rotineira de sedação anestésica para o procedimento.
É importante ressaltar que em nenhum momento se nega que a inserção de um DIU possa causar dor. Entretanto, a intensidade dessa experiência varia amplamente. Aspectos como paridade, idade, histórico obstétrico, presença ou ausência de cesarianas, ansiedade, medo, experiências ginecológicas prévias e fatores individuais relacionados à sensibilidade à dor podem influenciar significativamente a percepção do procedimento.
No Ambulatório de Planejamento Familiar da Unicamp, diferentes estratégias vêm sendo estudadas e aplicadas na tentativa de minimizar o desconforto durante a inserção do DIU. Contudo, os resultados demonstram que, embora algumas intervenções apresentem significância estatística, isso nem sempre se traduz em benefício clínico relevante para as pacientes.
A exemplo disto, há a sedação, que pode ser feita para a realização do procedimento de inserção. Porém para isso há todo um processo de avaliação anestesica, disponibilidade de centro cirúrgico, custos e riscos inerentes à sedação, tornando a inserção de DIU mais burocrática e arriscada.
A Universidade Estadual de Campinas desempenha um papel histórico e fundamental na assistência à saúde da mulher. O Ambulatório de Planejamento Familiar é pioneiro no país desde 1976 e oferece métodos contraceptivos de alta eficácia, incluindo DIU de cobre, DIU hormonal e implantes contraceptivos. Atualmente, mais de 40 mil mulheres são atendidas anualmente, sendo que a grande maioria relata satisfação com o atendimento recebido e com os métodos utilizados.
Estes atendimentos tem burocracia mínima, visto que o ambulatório de planejamento familiar é o único porta aberta da instituição (não necessitando de agendamento pelo sistema CROSS). Isto porque diversos estudo mostram que há muitos benefícios na oferta espontânea e em visita única em comparação à fluxos de atendimentos que exigem diversos exames e preparação para o procedimento.
O debate sobre a dor na inserção do DIU é legítimo, necessário e deve estimular avanços na assistência, no acolhimento e nas estratégias de manejo da dor. Entretanto, é igualmente importante reconhecer o trabalho sério, ético e pioneiro desenvolvido há décadas pelos profissionais envolvidos na promoção do planejamento reprodutivo e dos direitos das mulheres nesta instituição.
Luis Bahamondes
Professor Emérito da Universidade Estadual de Campinas
Ex-chefe do Ambulatório de Planejamento Familiar do Hospital da Mulher Professor José Aristodemo Pinotti (CAISM)













