Soropositivas vivem sonho de ser mãe

Jornal da Cidade de Bauru

O desejo feminino da maternidade é conflitante quando a protagonista é portadora do vírus da aids. O risco de contaminar o filho durante a gestação, parto e amamentação, pode fazer com que soropositivas desistam de ser mãe. Porém, mulheres que fizeram pré-natal e seguiram as recomendações médicas puderam dar à luz filhos sem o vírus HIV, causador da aids. Elas encontraram na maternidade um estímulo para dedicar-se à própria vida.

O risco da contaminação existe, porém o uso de medicamentos mais avançados e o acompanhamento médico têm evitado o nascimento de crianças portadoras do HIV desde 2003. A informação é do Centro de Referência do Serviço de Assistência Especializada de Moléstias Infecciosas, que atende pessoas de Bauru e de 38 cidades da região. A situação é bastante diferente da encontrada há 13 anos, quando foi criada a Associação de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab), que chegou a ter 12 bebês soropositivos na unidade.
Atualmente, mães portadoras do HIV, em entrevista ao Jornal da Cidade, são unânimes em apontar a força conquistada a partir da maternidade, porém, elas sentem-se fragilizadas pela impossibilidade da amamentação. “Dói muito quando o bebê chora e eu não posso dar o peito. Eu já evito e deixo meu filho virado para o outro lado”, diz uma das mães, que não serão identificadas pela reportagem.

O tema também foi abordado em tese de doutorado concluída em outubro, pela psicóloga e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Eliana Maria Hebling, que verificou o sentimento da maternidade das mães portadoras do HIV com a possível orfandade dos filhos.

A assistente social Silvia Regina Donda Forte, 41 anos, chefe do Centro de Referência, comenta que há diversos tipos de casos, mas quando a mulher desconhece ser portadora do HIV e só descobre quando já está grávida, pode ocorrer resistência ao diagnóstico. “Algumas não acreditam e levam a gravidez sem nenhum acompanhamento. Nesse momento, a adesão ao tratamento é muito importante, pois permite a redução da carga viral e evita a contaminação do bebê”, explica.

Atualmente a redução da quantidade de vírus HIV no organismo é possível com a descoberta de medicamentos mais eficazes. A condição do soropositivo hoje é semelhante a outras doenças crônicas como a diabetes e a hipertensão, que exigem medicamentos e acompanhamentos constantes. A diferença está na possibilidade de contágio.

Mafalda Sparantan, 60 anos, atuou durante 12 anos na presidência da Sapab e acompanhou a evolução dos tratamentos. “Quando começamos a trabalhar com aids, não havia leito suficiente, dávamos atendimento à família. A doença evoluía com rapidez.” Hoje, se a pessoa faz o tratamento corretamente, consegue manter a carga viral equibrada. “O problema é quando pára de tomar o medicamento, aí aumenta a quantidade de vírus, que fica resistente àquele medicamento, é necessário então passar para outra etapa, com medicamento mais forte”, explica Sparantan, que também atua como assistente social no Centro de Referência.