Filho é alento para portadoras de HIV

Jornal da Cidade de Bauru

Embora cause uma série de preocupações, a maternidade também é um grande alento para as mulheres portadoras do vírus da aids, HIV. A constatação é da psicóloga Eliana Maria Hebling, 51 anos, que defendeu, no final de outubro, tese de doutorado sobre o assunto na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisadora detectou em seus estudos que ao mesmo tempo em que as mães sofrem por associarem a gravidez com a orfandade dos filhos, as soropositivas também encontram na oportunidade de ser mãe um estímulo para cuidar ainda mais da própria saúde.

Com o título “Mulheres e aids: sentimentos associados à maternidade e à orfandade”, Eliana entrevistou 12 mulheres portadoras do HIV com idades entre 20 e 39 anos e diferentes níveis de escolaridade. “A diferença de se fazer uma pesquisa qualitativa é a possibilidade de realizar entrevistas com profundidade, que vão além do sim e não. Elas contam casos, falam de sentimentos, crenças, valores. Foi possível aprofundar o tema”, recorda a pesquisadora.

A pesquisadora foi buscar, dentro do universo escolhido, o que as mulheres pensam dessa dualidade, o desejo de ser mãe e a idéia, mesmo que hoje mais distante, da possível orfandade. “Se elas planejaram quem cuidaria dos filhos”, exemplifica.

Eliana entrevistou 12 soropositivas, das quais quatro estavam grávidas quando receberam o diagnóstico e quatro decidiram ter filhos após tomarem conhecimento da contaminação. As outras quatro optaram por não engravidar, porque temiam transmitir o vírus para os bebês. Porém, elas já tinham pelo menos um filho. Conforme a pesquisadora, a maioria era casada ou vivia uma união estável durante o estudo.

De acordo com a pesquisadora, em todos os casos, a maternidade era a razão de vida e por isso, importante também a adesão ao tratamento. “Ser mãe é uma coisa que toda mulher deseja, então, elas se preocupavam em tomar os remédios para não transmitir para o filho”, diz Eliana. Aquelas que já tinham filhos, optaram por não engravidar, mas as novas mães tiveram dificuldades na hora da amamentação.

“Para quem foi mãe, deixar de amamentar é muito forte. Uma delas esqueceu que não iria amamentar, comprou cadeira, sutiãs apropriados, porque tinha esquecido. Ela sabia de sua condição, mesmo assim, instintivamente agiu como se pudesse, mas não amamentou”, comenta a psicóloga.

Mas o fato de não amamentar, explica Eliana, expõe a mãe soropositiva, que sofre cobranças da sociedade porque não amamenta seu filho. “Ao serem questionadas por desconhecidos do motivo de não amamentarem seus filhos, essas mulheres se viam num beco sem saída: ou passavam por relapsas ou expunham a sua condição de soropositivas”, esclarece a autora da tese.

Elas se sentiram estimuladas a cuidar melhor da saúde, como forma de prolongar a vida e acompanhar o crescimento dos filhos. “A maioria procurava não pensar na morte, pois isso, segundo elas, seria uma forma de apressar o próprio fim.”, afirma. Todas as crianças nasceram soronegativas.

Eliana Hebling conta que a despeito de procurarem não pensar na morte, essas mulheres evidentemente consideravam a possibilidade de os filhos ficarem órfãos. Diante disso, elas estabeleceram estratégias que visavam a proteger as crianças. Uma delas foi a aproximação dos familiares. “Elas passaram a estabelecer acordos com irmãos, pais e padrinhos para que estes viessem a cuidar do filho caso elas morressem. Esse dado mostra o quanto é importante que os serviços de saúde que atendem essas mulheres também trabalhem na orientação dos seus familiares”, diz.

Um outro ponto detectado pela autora da tese foi o fato da maioria das mulheres não receber apoio do parceiro, que não conseguiu lidar com a situação de soropositividade da companheira. Assim, muitas acabaram se separando, mas depois encontraram alguém que as aceitasse e incentivasse. Em poucos casos houve estreitamento no relacionamento original.

Um exemplo que ajuda a explicar a importância da maternidade para essas mulheres vem de outra personagem entrevistada por Eliana Hebling. Essa mulher, conforme a psicóloga, ficou sabendo que era portadora de HIV ao abrir imediatamente o resultado do exame que fora buscar no posto de saúde. Entretanto, quando foi pegar o exame para saber se o filho era ou não soropositivo, ela não teve coragem de lê-lo antes de estar na presença do médico. “A preocupação com o bem-estar da criança, para essas mulheres, começa antes da gravidez, passa pelo parto e segue pelo resto da vida”.

Justamente para evitar todas essas dores, dúvidas e preocupações é que algumas das mulheres ouvidas pela autora da tese escolheram não engravidar. Entretanto, todas elas já tinham pelo menos um filho quando receberam o diagnóstico de que eram portadoras de HIV. “Para estas, o desejo da maternidade já havia sido preenchido. Mas fiquei com a nítida impressão de que se elas já não fossem mães, possivelmente teriam optado pela gravidez, mesmo sabendo que eram soropositivas”, arrisca. A orientadora de Eliana Hebling foi a professora Ellen Elizabeth Hardy, professora do Departamento de Tocoginecologia da FCM.