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Ellen Hardy foi socióloga, doutora em saúde pública, nascida na Argentina, naturalizada chilena e que viveu no Brasil por quase 34 anos. Era pesquisadora... mas não apenas isso... principalmente, foi bem mais que isso. Em seu memorial, apresentado ao Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, no ano 2000, ela reconhecia que tinha tido “uma vida de cigana, tendo morado em sete países, nove cidades e inúmeras casas”. Ela dizia que profissionalmente nasceu no Chile, cresceu na República Dominicana e amadureceu no Brasil. Esse percurso geográfico evoca a trajetória de vida de uma pessoa que percorreu caminhos e ocupou espaços diversos ao longo de sua vida: inseriu-se na vida social como a grande maioria de suas contemporâneas, dedicando-se exclusivamente ao marido, aos filhos e à casa; despertou para suas outras potencialidades e vislumbrou a possibilidade de ser também uma profissional, quando precisou lutar muito para conciliar essas distintas facetas do que significa ser mulher. A luta pela equidade de gênero sempre permeou a trajetória de Ellen e a levou a ser pioneira em ocupar cargos e postos antes tidos como atribuíveis apenas a homens, bem como fez dela uma questionadora dos estereótipos de gênero em nossa sociedade e defensora da abertura de novos espaços legítimos para participação das mulheres. Esforço e persistência também foram marcantes em sua luta por construir e consolidar seu espaço como pesquisadora e professora, desenvolvendo estudos pioneiros na interface das pesquisas sociais com as biomédicas, ensinando a jovens aprendizes e pesquisadores o ofício e a aventura de fazer pesquisa em países periféricos, com poucos recursos, mas com muito rigor e disposição. Com essa perspectiva, a Dra. Ellen Hardy marcou a formação de muitos pesquisadores, especialmente no Cemicamp- Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas e no Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP. Nos últimos anos, apaixonou-se pela bioética e dedicou boa parte de seu tempo a estudar, pesquisar e ensinar sobre esse tema; alcançou os foros acadêmicos e de pesquisa no cenário internacional mas, como ela mesma dizia, sempre sentiu-se latino-americana e tentou utilizar seus conhecimentos e capacidades na região. O legado que nos deixa a Dra. Ellen Hardy compreende não apenas suas inúmeras publicações, somadas ao seu empenho, competência e dedicação no exercício da docência e da pesquisa. Esse legado inclui, sem dúvida, também seu exemplo de pessoa que precisou enfrentar e superar muitos obstáculos, conviver com certezas e dúvidas, afirmações e contradições, para obter suas conquistas. É o legado de um ser humano. Nada melhor do que dar-lhe a palavra para uma
auto-reflexão, também expressa no memorial do ano 2000: Tive uma vida com experiências muito negativas e tristes e também rica em experiências positivas. Entre as primeiras, sobressai o êxodo forçado do Chile. De positivo, a longa convivência com meu marido com cujo apoio tenho contado sempre... Sou muito grata a ele. Além disso, meus filhos, que têm me dado muitas satisfações e motivos de orgulho, tanto do ponto de vista afetivo quanto pelas conquistas em suas vidas. Por último, quero ressaltar a felicidade que a simples existência de meus netos tem significado para mim. Não tenho palavras para expressar o quanto eles, os quais eu não esperava, tão ocupada estava com minhas coisas, têm enriquecido meu viver.”
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